terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O grito


O grito é a angústia para fora;
É a angústia indo embora
De dentro do corpo da gente,
Saindo da nossa mente
Para que na cama, ao anoitecer,
Eu sonhe só com você.

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Há gritos e gritos, os belos e os feios. Todos são meio estranhos. Tem a Yoko Ono gritando como uma doida no “Two Virgins” – feio. Tem o Eddie Vedder gritando como um louco no final de “Black”, colocando o coração para fora – lindo! Há gritos mais polêmicos, no entanto. O de Munch, na ilustração, é um deles. Um grito silencioso, solitário, distorcido – um grito para ninguém, talvez nem mesmo para quem grita. Ainda assim, pior é não gritar.


O grito belo:


http://www.youtube.com/watch?v=AFVlJAi3Cso



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Blind Melon Bee Girl


Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Fernando Pessoa, “Poema em linha reta”



Sou uma abelha sozinha,
Nem operária, nem rainha;
E vou levando esta vidinha
Numa colméia que não é a minha.

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Quem nunca se sentiu como a garotinha-abelha no videoclip do Blind Melon? Se alguém nunca se sentiu desajustado e rejeitado, sinto muito, mas isso me parece sinal de mediocridade (sem querer ofender).

Citando o tio da pequena Miss Sunshine, que, por sua vez, cita Proust, os anos felizes não acrescentam muito à biografia de ninguém, mas os infelizes... estes, sim, são época de desenvolvimento e produção. Eu, particularmente, acho que tempos felizes também são ótimos, mas entendo que uma vida sem um pingo de desajuste é muito vazia.

Afinal, se você é sempre aceito pelo grupo e nunca se sente solitário ou incompreendido, o que há de especial sobre você?

Para quem não sabe que garotinha-abelha é essa:

http://www.youtube.com/watch?v=qmVn6b7DdpA


sábado, 13 de dezembro de 2008

Transgressão


Eu sou a transgressão;
Eu sou a vontade no olhar alheio.
Eu te encosto, eu te permeio,
Mas você me diz não.


Eu sou a transgressão;
Eu sou a boca que você deseja,
Eu sou a boca que você não beija –
Você me diz não.


Eu sou ilusão.
Eu sou o mundo mais complicado,
Sou o caminho mais emaranhado,
Para quem me diz não.


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Transgredir ou não transgredir? Eis...
A transgressão sem princípios – ou seja, transgressão apenas por transgredir – é tão estúpida quanto o acato sem crítica do que se deve respeitar. Não muda nada, não melhora nada. É como muitos funks e hip hops que, embora façam parte de um tipo de música originalmente transgressor, falam de como a mulher tal é gostosa ou de quanto dinheiro os cantores têm para comprar carros, correntes de ouro, roupas de grife e mulheres gostosas. Isso não é mais transgressão, é mainstream burro.
Transgredir é positivo e/ou negativo, depende do contexto. Afinal, todo mundo gosta de algo que não pode ou não deve.
Um tipo de transgressão interessante é não fazer aquilo que se espera de você. Basicamente, quebrar rótulos. Se, em 1990, alguém dissesse que o U2 iria fazer um disco altamente dançante, para encher pista, diriam que esse alguém estava por fora. Transgredindo, Achtung Baby foi lançado em 1991 e trouxe uma das melhores músicas para se dançar do planeta, que está no link abaixo. “Autotransgressão” – talvez a melhor que há.

http://www.youtube.com/watch?v=s7XnSrMVftE

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vida de coisa


A correia dentada - coitada!
Abandonada
Junto ao meio-fio, perto da calçada,
Sob a chuvarada.
Tão usada e nunca amada.
Agora quebrada e largada.


De tanto já serviu...
Não vale mais nada.

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A gravura que ilustra o poema é de Oswaldo Goeldi, artista carioca do início do século XX. É chamada de "Abandono".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Abaixo a dicotomia! (Da série poesia exclamativa)


Se a lua fosse masculina...
Se o preto indicasse alegria...
Se o sol fosse menina...
Se não existisse dicotomia...


Quero meu mundo libertado
Pra pensar e repensar.
Quero não ser enganado,
Com malícia orientado
Pra não sair do lugar.


Fora o que cristalizou!
Deixe a cabeça vazia
Pro que minha mente criou:
Abaixo a dicotomia!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Estoque


Ah, o jargão que assassina a poesia!
A cabeça não se move, meneia.
E partindo daí o poeta floreia.
Quando você vira tu,
O poeta bem que podia ir tomar um café.


“Lábios doces como o mel.
A vida é um palco.
Tua frieza me gela a alma.
Chorei lágrimas de fel.”
Estoque de imagens reaproveitado.
Ah, poetinha safado!


Viva Drummond! Viva Pessoa!
Com que simplicidade boa
Tiram a dicção poética para uma valsa!
Leia e aprenda, poeta mala-sem-alça.

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Os neoclássicos que me perdoem, mas simplicidade é fundamental. Como já dizia Wordsworth, regulando o romantismo sem saber que o regulava, a linguagem da poesia é igual à linguagem da prosa quando esta é bem escrita. Benditos sejam os românticos, que abriram devagarzinho a porta de saída para que, pouco a pouco, todas as imagens de estoque voltassem de onde vieram e o poeta ficasse LIVRE! Aí vão dois bons exemplos de liberdade:

http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema001.htm

http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Boa estrela


Pensar nos perigos do mundo é paralisante.
Mas viver paralisado é tão frustrante...


Queria uma ajuda da sorte
Para afastar o medo da morte,
Das mortes que tecem a vida
De iminente despedida.


Mas a sorte é minha?
(A sorte é de quem tem.)
Às vezes me aninha,
Às vezes se abstém.